segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

O 18 de brumário de Luís Bonaparte e o golpismo reacionário bolsonarista: uma análise da farsa histórica

 “A história se repete, primeiro como tragédia, depois, como farsa” (Marx, 2011, p. 25)

Essa frase de Marx nos faz pensar como o golpismo bolsonarista, com seu lacaísmo e delírio nacionalista, tentou refazer o golpe de 64 para defender a “liberdade, costumes e família”. Isso não é novo, e tampouco surpreendente, mas nem por isso deixa de ser tão interessante. 

Marx, nessa obra, analisa os processos de tentativa da França de se “colocar nos trilhos” politicamente, com a classe dominante fragmentada em vários interesses pequeno-burgueses, o proletariado organizando o princípio da social democracia, entre outros movimentos. 

Após uma redemocratização louvável, o Brasil se introduziu de vez no mercado mundial, na lógica neoliberal e em todas as suas potencialidades e (muitas) falhas. Esse processo resultou em uma eleição de uma hegemonia social-democrata (PT - Lula I e II (2003-2010), Dilma 2011-2016) até sua eminente falha e o golpe elaborado pela direita no ano de 2016. Com o período de baixa na esquerda social-democrata e uma direita tradicional desacreditada, o bolsonarismo e o seu showman Jair vieram meteoricamente para abalar as bases da política dita “moderada”. 

O seu discurso inflamado, pseudo-nacionalista, punitivista, fundamentalista e com apoio das bases evangélicas e seus pastores, catapultaram o até então irrelevante Bolsonaro a presidência em menos de um ano. O lema do bolsonarismo “Deus, pátria e família” é bem interessante, vamos ver o que Marx tem a dizer sobre isso:

Durante o mês de junho, todas as classes e todos os partidos se uniram no Partido da Ordem contra a classe proletária, considerada partido da anarquia, do socialismo, do comunismo. Eles “salvaram” sociedade dos “inimigos da sociedade”. O lema repassado por eles as suas tropas consistia nas palavras-chave da antiga sociedade “Propriedade, familia, religião, ordem”, instigando a cruzada contrarrevolucionária com a frase: “Sob este signo vencerás!” (Marx, 2011, p. 36). 

No contexto de recém golpe sofrido pela social-democracia, podemos dizer que o “partido da ordem” era a “nova” extrema-direita que iria livrar o Brasil do “comunismo, da depravação, do kit gay, da mamadeira fálica que iria sexualizar as crianças”. Um perigo, não? Não só a nova extrema direita pretendia nos “livrar” desse mal, mas também retomar “os bons costumes, a família tradicional, a ordem.” Esses eventos não são exclusivos de nossa realidade, mas têm suas particularidades. 

Se em 1964 tínhamos o contexto de guerra fria, guerras ideológicas e um governo desenvolvimentista que não mostrava subserviência aos EUA, em 2016 tínhamos uma social democracia em crise, um modelo econômico neoliberal mostrando mais suas garras e precisando de expansão. Dois interesses em comum das forças da reação, o neoliberalismo e o imperialismo estadunidense, dois governos com tentativas de independência econômica e social dos EUA, sensação de insegurança entre as pessoas, fantasmas do “socialismo” rondando os dois contextos. É a tragédia e a farsa em uníssono para um grande subdesenvolvimento! 

Após 2018, eleição de Bolsonaro e ascensão geral da extrema direita neopentecostal que perdura até hoje, perguntamo-nos: como a democracia, este pináculo tão valorizado, não consegue se manter estável por mais de 30 anos, especialmente no Brasil? Não há resposta simples, mas Marx nos elucida mais uma vez: “ [...] o domínio político da burguesia é incompatível com a segurança e a continuidade da burguesia, destruindo com as próprias mãos, na luta contra as demais classes da sociedade, todas as condições de seu próprio regime” (Marx, 2011, p.124). 

A democracia constitucional, o direito ao voto, a igualdade jurídica, a pluralidade de ideias, tudo isso se volta contra a própria burguesia. Assim, seus setores necessitam de uma tal dita “ordem” para controlar as demais classes e sufocar seu poder político, pois seus próprios ideais se voltaram contra ela. Vejamos ainda: 

O regime parlamentarista; a massa extraparlamentar da burguesia, em contrapartida, sendo servil ao presidente, insultando o Parlamento, maltratando a sua própria imprensa, praticamente convidou Bonaparte a reprimir e destruir o segmento que dominava a fala e a escrita, os seus políticos e os seus literatos, a sua tribuna e a sua imprensa, para que pudesse, confiadamente, sob a proteção de um governo forte e irrestrito, dedicar-se aos seus negócios privados. Ela declarou inequivocamente que estava ansiosa por desobrigar-se do seu próprio domínio político para livrar-se, desse modo, das dificuldades e dos perigos nele implicados (Marx, 2011, p. 124). 

Nesse excerto vemos que a burguesia, além de saber que seu ideal de modelo governamental se volta contra si, prefere eleger um presidente autocrático para ter um governo forte e irrestrito, para poder cuidar dos seus negócios em paz, mesmo que isso signifique censurar, perseguir, esmagar sua imprensa e seus ideologizadores - até então seus aliados. 

Insatisfeita econômica e ideologicamente com um governo social-democrata, a burguesia o derruba, estabelece o fortalecimento de uma política neoliberal, e elege depois um autocrata neofascista para reproduzir o discurso socialmente reacionário e economicamente neoliberal unindo, assim, por quatro anos, o útil ao agradável, e com um congresso totalmente dominado. É o sonho cristalizado do burguês: ter liberdade econômica e jurídica da exploração humana, com a proteção de um idealizador que manipula sua massa trabalhadora para o lema: Deus, família, ordem, liberdade, e etc.

Nosso pequeno estudo nos leva a seguinte (porém não completa) conclusão: a burguesia quer, precisa de seu viés democrático, o modelo ideal, mas seu sistema econômico entre em constante conflito com suas ideias políticas. Tendo isso em mente podemos verificar, na realidade brasileira, a necessidade, de tempos em tempos, de um governo neofascista, que garanta os interesses burgueses e seu cumprimento com palavras de ordem, religião e etc. Seja em 64 ou em 2016, 2018, 2022, a democracia será atentada, não por ser conceitualmente ruim, mas porque o sistema econômico é invariavelmente contrário à sua plena existência sem concessões, violências e destruição dos direitos do proletariado. 

Referências

MARX, K. O 18 de brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: Boitempo, 2011. 

Osvaldo Ferreira Silva

sábado, 24 de janeiro de 2026

Quando o sonho do oprimido é tornar-se opressor

Esse pequeno texto é um convite à academia para que possamos inserir em nossas agendas de reflexão a pauta das dinâmicas internas de funcionamento dos programas de pós-graduação para além dos regimentos oficiais e a pauta da saúde mental dos pós-graduandos. 

Há alguns eu ingressei no curso de doutorado de um programa de pós-graduação de uma universidade pública. Durante a entrevista, última etapa do processo seletivo, o/a orientador(a) pretendido(a) mostrou-se muito acolhedor(a) e compreensivo(a) em relação à minha situação de docente da rede pública, o que me fez acreditar que o ritmo de estudos e exigência em relação à pesquisa seriam adequados ao meu contexto. Entretanto, já na primeira reunião de orientação coletiva, percebi que me equivoquei: acuados, os demais orientandos tinham receio de falar sobre suas pesquisas e os trabalhos que estavam desenvolvendo. Pouco tempo depois, fui pressionado a aceitar uma rotina extenuante: além da elaboração do próprio projeto de pesquisa, eu deveria cumprir todos os créditos em 12 meses, o que envolvia inúmeras atividades, como cursar disciplinas, produzir artigos para publicar em revistas com fator de impacto, participar de eventos acadêmicos, colaborar na elaboração e aplicação de planos de aula de disciplinas da graduação. O acolhimento e compreensão iniciais desvaneceram-se, e eu já não podia tolerar ser tradado com grosseria e rispidez diante dos demais orientandos. Eles suportavam as humilhações calados, mas eu decidi que o título não valia a minha dignidade: o preço era alto demais e eu não estava disposto a pagar. 

Depois de decidir pelo desligamento do programa, comecei a avaliar as trilhas que percorri no curso de mestrado do mesmo programa e instituição. A experiência não havia sido tão insalubre, mas deixou suas marcas negativas: falta de retorno em relação às atividades entregues, o que gerou insegurança em relação ao aproveitamento do curso e à sua conclusão de maneira satisfatória; falta de retorno em relação ao andamento da minha pesquisa, o que tornou o processo de qualificação extremamente ansiogênico; apropriação indevida de trabalhos acadêmicos produzidos por mim, o que gerou revolta e indignação, entre outras situações. 

Essas experiências foram vividas antes da divulgação, na mídia, dos casos de abuso sexual e demais abusos cometidos por intelectuais brasileiros e estrangeiros, pesquisadores que se tornaram referência em suas áreas de estudo e atuação, e que se enquadram em um campo que poderíamos denominar de “progressista”. Comparando as experiências, comecei a me perguntar se existiria um padrão. Talvez o sonho do oprimido seja tornar-se opressor. Não pretendo explicar um fenômeno extremamente complexo a partir de casos particulares, ou justificar os atos criminosos cometidos por essas pessoas. Penso apenas que essas situações evidenciam o fato de que precisamos refletir sobre as sequelas da pós-graduação. 

sexta-feira, 13 de junho de 2025

O currículo como tecnologia de guerra

 [...] E à noite nas tabas, se alguém duvidava 
Do que ele contava, 
Tornava prudente: “Meninos, eu vi!

Gonçalves Dias


Fonte: Poder 360

Desde outubro de 2023 assistimos, silentes, a intensificação dos conflitos em Gaza e o consequente genocídio do povo palestino. Coincidentemente nesse interim – ou propositalmente – as escolas da rede pública estadual paulista de educação tornaram-se o púlpito do qual uma ideologia se amplificou apropriando-se do currículo da educação básica paulista para transformá-lo em tecnologia de guerra. 
Uma organização internacional, que em seu portal oficial se autodefine como “apartidária” e, ao mesmo tempo, como uma organização educacional de Israel, firmou parceria com a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP) para oferecer a professores e estudantes um ciclo intensivo de formação sobre antissemitismo. Foi distribuída aos estudantes toda a sorte de materiais possível, e a instituição também doou inúmeros livros à administração pública do estado. Esse relacionamento está amplamente documentado pelas publicações do Diário Oficial do Estado. No mesmo período, não foi possível localizar documentos que evidenciassem uma relação amistosa entre o governo do estado de São Paulo e instituições árabes no que tange à execução de projetos educacionais em qualquer escala.
Considerando a experiência da unidade escolar onde atuo, como resultado desse projeto sobre antissemitismo, professores e professoras desenvolveram atividades diversas que, de um lado, tiveram o mérito de discutir temas relacionados aos direitos humanos e resgatar a memória do holocausto e, de outro, difundir entre os estudantes informações equivocadas que os impossibilitaram de estabelecer a correta distinção entre os termos antissemitismo e antissionismo, por exemplo. Cabe aqui a distinção entre os dois termos: o antissemitismo consiste na aversão ou perseguição aos judeus; ao passo que o antissionismo consiste na oposição a um grupo político originado dentre os judeus, o qual reivindica para si o estabelecimento de um Estado judeu independente – o que equivale a dizer que nem todo judeu é sionista. Porém, o conteúdo propagado pela instituição “apartidária” induziu ao erro ao menos nesse aspecto. 
Evidentemente, uma análise mais apurada de todo o material amplamente divulgado entre docentes e discentes é mais do que necessária para tecer uma reflexão conclusiva a respeito. Ainda assim, se não houve espaço e oportunidade para a discussão crítica dos tópicos abordados durante a formação de modo a contemplar a perspectiva palestina, pode-se inferir que nesse caso o currículo foi utilizado como tecnologia de guerra. E de uma guerra específica, ainda em curso, e que tem vitimado inocentes diuturnamente por meio dos crimes mais perversos. A afirmação pode parecer descabida, precipitada ou um tanto quanto exagerada, mas não podemos esquecer as lições aprendidas com Tomaz Tadeu da Silva: os currículos escolares não consistem apenas em uma listagem de disciplinas. Currículo é documento de identidade, é projeto de sociedade. Por isso, sempre haverá disputa em torno daquilo que deve ou não ser ensinado às crianças e aos adolescentes na escola. Parafraseando Chimamanda Ngozi Adichie, se a história possui muitas vozes, urge sabermos em qual momento o brado do povo palestino ressoará nos currículos e ambientes escolares. 



terça-feira, 21 de janeiro de 2025

Parado em movimento

— Anda muito tempo por aqui?

— Tanto tempo quanto estou parado. 

— Está há muito tempo parado? 

— Tanto tempo quanto estou respirando. 

— Há quanto tempo você respira?

— Não me recordo, quando dei por mim já estava respirando.

— Então você não sabe quanto há quanto tempo você está andando?

— Não importa, mesmo se eu andasse por milhas eu ainda ficaria parado. 

— Não entendi. 

— Você entenderá, mas quando você começar a entender, você já estará parado. 

— E como eu faço para voltar a andar? 

— Boa pergunta, pequena. Mas, se eu soubesse responder, eu já estaria andando há muito tempo. 

 — É bom estar parado?

— E eu te pergunto: é bom estar andando?

— Não sei, nunca parei para pensar nisso, eu só estava vivendo.  

— Por isso você ainda está andando. 

— Ué, então por que você não está andando? Se estivesse morto eu não conseguiria falar com você. 

— Você só entenderá quando estiver parada. Então eu te pergunto: há quanto tempo você está andando? 

— Não me recordo, quando dei por mim já estava andando...


Wilke Meira


quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

Uberização: mais um cadafalso para a educação

Em 26 de fevereiro de 2021 veio a público no canal do YouTube do jornal Folha de S. Paulo o primeiro vídeo da série intitulada “E Eu ?” que, conforme descrição no canal, objetiva apresentar o relato de “minorias pouco representadas na mídia” a respeito de “problemas na relação com a imprensa”. O vídeo em questão consiste em uma entrevista concedida por Paulo Lima – conhecido como Paulo Galo, líder do movimento dos Entregadores Antifascistas – na qual discute de maneira contundente, entre outros temas, as características e abrangência da precarização do trabalho no séc. XXI. Desde o primeiro dia em que o assisti decidi adotá-lo como material paradidático para as aulas de Filosofia, sobretudo para as ocasiões nas quais me proponho a tecer reflexões, com os estudantes, acerca do mundo do trabalho. 

Durante a entrevista, Paulo Lima afirma que a uberização não é um problema exclusivo dos entregadores, mas um processo que alvejará outros setores. E argumenta que se a Revolução Industrial foi responsável pela diminuição dos empregos, a uberização, por sua vez, será responsável pela supressão dos direitos trabalhistas – que não foram concedidos pelos patrões, mas conquistados pelos trabalhadores com muito suor, sangue e lágrimas, ao longo da história. Ao abordar essa questão com os estudantes tento pensar em outros exemplos, mas não consigo ignorar a situação da minha categoria profissional que, ano após ano, assiste imóvel ao próprio estrangulamento: é como se, a cada gestão, governadores e secretários da educação apertassem um pouco mais a corda que cinge violentamente a garganta dos professores e professoras da educação básica pública paulista. 

Uma das primeiras laçadas foi, sem dúvida, a imposição de uma diferença remuneratória entre os cargos de Professor de Educação Básica I e Professor de Educação Básica II. O primeiro cargo, caracterizado pelo exercício da docência nos anos iniciais do ensino fundamental, abarca tarefas importantíssimas como a alfabetização e o ensino dos primeiros cálculos e é desempenhado em sua grande maioria por professoras que recebem um valor menor de hora-aula do que o que é pago aos professores  que exercem o segundo cargo (grupo heterogêneo no qual a presença masculina é bem mais evidente) – há aqui, portanto, uma desvalorização que se pauta no recorte de gênero. 

Alguém poderia objetar que essa situação não se configura como uma ação deliberada de redução de direitos, e que os docentes paulistas vivem este cenário há muitos anos, resignadamente. Eu prefiro pensar que remuneração justa é direito, e que uma situação de injustiça jamais perde seu caráter, mesmo diante do silêncio dos injustiçados. Ainda assim, considerando a objeção, é possível encorpar a argumentação citando os inúmeros episódios dos últimos anos, dentre eles: o esquartejamento da classe docente em oito categorias (A, P, N, F, S, L, O e V) e a distribuição profundamente desigual de direitos trabalhistas entre elas – ação que, diga-se de passagem, desuniu a classe e coibiu sua reação; o cancelamento das ausências abonadas; a redução da quantidade de aulas de disciplinas específicas como Filosofia, Sociologia e Artes; a privatização de escolas; a total falta de transparência no processo de atribuição de aulas para o ano de 2025... 

A pergunta que sempre fica é a seguinte: existe solução? Penso que sim. Em sua entrevista, Paulo Lima descreve como a organização coletiva foi fundamental para que os entregadores de todo o Brasil alcançassem visibilidade: um passo importante para a categoria, que segue em luta por direitos e melhores condições de trabalho. Essa é a minha aposta. Estamos esgotados, mas a defesa dos nossos direitos enquanto classe trabalhadora é o que nos resta: a derradeira tentativa de escapar da forca, cujo sucesso depende da efetiva organização coletiva dos professores e professoras. É preciso engajar-se nessa luta! 


quinta-feira, 12 de dezembro de 2024

O silêncio nos conduzirá à bancarrota*

Desde que ingressei na rede pública estadual de educação como professor em regime de contratação temporária, há 12 anos, convivo com o temor de que em algum momento não haverá espaço para a Filosofia na educação básica. Portanto, logo no início da carreira, fui orientado por diretores de escola e colegas professores a cursar outra graduação para ter uma carta na manga no momento em que a ameaça se consolidar. Durante algum tempo, a estratégia do governo do estado de São Paulo foi a de fechar salas de aula no período noturno reduzindo, a um tempo, a quantidade de turmas e a jornada de trabalho dos professores. Essa medida foi incrementada com a expansão do Programa Ensino Integral (PEI) e, posteriormente, com as reformas curriculares dos últimos anos: arbitrariedades fantasiadas de legalidade. 

A implementação da etapa Ensino Médio da Base Nacional Comum Curricular impôs aos estados a tarefa de reorganizar os currículos. Progressivamente, o Currículo Paulista substituiu o Currículo do Estado de São Paulo: Ciências Humanas e suas Tecnologias, e as disciplinas que eram ofertadas apenas no âmbito do PEI passaram a compor as grades curriculares de todas as escolas estaduais, reduzindo o já parco espaço que a Filosofia dispunha. Parece que acompanhamos essa movimentação como se ela nada tivesse a ver conosco. Preferimos discutir alternativas para ensinar Filosofia nas brechas curriculares que nos restaram: inventar uma disciplina eletiva de cunho filosófico; assumir a disciplina de Projeto de Vida e discutir os temas que a ela concernem a partir da perspectiva filosófica; acrescentar aos itinerários formativos desvios e atalhos filosóficos. Em síntese, alegramo-nos com o mínimo, e isso foi suficiente para abandonarmos a trincheira da garantia institucional do ensino de Filosofia na educação básica. 

Há pouco celebramos o aumento do número de questões de Filosofia na última edição do Enem. E essa parca vitória desviou nossa atenção das próximas alterações curriculares que enfrentaremos em 2025, tendo em vista a aprovação da Lei n.º 14.945/24: na unidade escolar onde atuo, a Filosofia será ofertada apenas para a primeira série do ensino médio, no período vespertino; as turmas de segunda série do ensino médio, do período noturno, terão aula de Filosofia e Sociedade Moderna – uma pseudodisciplina que será oferecida a distância, no contraturno, e da qual não se sabe o conteúdo, já que caberá ao professor e à professora o papel de mediação que se resumirá ao acompanhamento da realização das tarefas pelos alunos. Não haverá Filosofia para as turmas da terceira série do período noturno. A tática de terra arrasada parece ter sido executada com maestria: a ameaça supramencionada enfim se concretizou. O que nos resta? Vislumbro apenas duas alternativas: (i) nós, que nos habituamos a filosofar nas brechas, teremos que aprender a filosofar sob escombros – a velha estratégia da adaptação, do currículo oculto, que já se mostrou ineficaz; (ii) unir esforços e erguer uma barricada para defender, de maneira aguerrida, a permanência do ensino de Filosofia na educação básica. Eu escolho a segunda opção e conclamo os filósofos e filósofas que atuam na linha de frente na educação básica a fazerem o mesmo. Do contrário, o silêncio nos conduzirá à bancarrota. 

*Texto publicado originalmente na Coluna Anpof


segunda-feira, 13 de maio de 2024

Limbo racial

Há tempos tento decidir qual a melhor forma de partilhar as impressões em relação aos últimos eventos que ocorreram em minha vida. Apesar de considerar que ainda não encontrei a fórmula ideal, senti-me inspirado a escrever, e decidi produzir algo antes que a inspiração me abandonasse novamente e a proposta de reflexão se perdesse por completo.

Em termos deleuzianos, a experiência com determinado acontecimento é e sempre será particular, pessoal e intransferível. Entretanto, alguns aspectos desse acontecimento são generalizáveis, o que justifica a nossa identificação com determinadas histórias: dada a singularidade de cada pessoa, somos incapazes de experimentar exatamente o que o outro experimenta, mas há algo na experiência alheia que se repete em outras experiências e em minhas experiências. Talvez seja esta a fórmula da empatia.

Em 2020 atuava como professor em uma escola adepta às diretrizes do Programa Ensino Integral (PEI). Fui aprovado no processo seletivo do curso de mestrado do Programa de Pós-Graduação em Educação e Saúde na Infância e Adolescência da Universidade Federal de São Paulo (PPGESIA/Unifesp), no qual pretendia desenvolver uma pesquisa voltada à saúde mental dos meus alunos. 

Embora o imperativo da virtualidade incidisse sobre mais de 90% das atividades cotidianas de qualquer pessoa como medida para evitar a propagação do novo Coronavírus, o diretor da unidade escolar, um homem branco, não mediu esforços para encontrar subterfúgios que me fizessem desistir da pós-graduação. Uma de suas alegações era a de que havia conflito entre os horários da pós-graduação e da escola e que, por isso, as normas do PEI não me permitiriam dar continuidade aos estudos. 

As normas do PEI também não previam aulas remotas, mas na emergência de uma pandemia de proporções globais, muitos profissionais se viram diante da necessidade de repensar e adequar sua prática: afinal, se assim não fosse, todos os professores do PEI estariam trabalhando na ilegalidade, não é mesmo? Eu não podia estudar e trabalhar, mas ele podia cursar o mestrado, lecionar na universidade e ser diretor de uma escola que, sob a égide do PEI, tinha como prerrogativa o Regime de Dedicação Plena e Integral. Concluí que eu não podia me tornar mestre porque não sou um homem branco

À época eu estava afiliado à Associação Brasileira de Pesquisadores Negros. Contatei a associação em busca de apoio, mas não obtive retorno. 

Dois anos depois, vivi uma experiência humilhante na universidade. Reproduzo aqui o texto que mantive em minha dissertação de mestrado como denúncia permanente: 

No dia 4 de agosto de 2022 compareci ao campus Guarulhos da Unifesp para retirar o bilhete único de estudante. O atendimento havia sido agendado previamente. A equipe de segurança tentou me impedir de acessar a unidade, mesmo diante da documentação que comprovava meu vínculo estudantil. Sob a falsa alegação de uma recente invasão, o chefe da equipe de segurança foi acionado para me “acompanhar” até a sala da secretaria do programa de pós-graduação ao qual eu estava matriculado. A suposta invasão não foi comunicada à comunidade acadêmica no site ou por e-mail, tampouco os novos “protocolos de segurança”. A violência simbólica não é menos danosa do que a violência física. Contudo, as denúncias só causam impacto quando um corpo negro jaz, sem vida. A direção administrativa da EFLCH negou por duas vezes as denúncias feitas por meio do portal Fala.BR. A direção acadêmica da EFLCH, a Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as – à qual eu estava filiado – e o Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da Unifesp omitiram-se em relação ao caso, decidindo deliberadamente posicionarem-se contra a vítima. 

Penso que, assim como o humorista e músico Eddy Júnior, o jogador de futebol Vini Jr. e Davi Brito, participante da última edição do reality Big Brother Brasil (só para mencionar alguns poucos casos isolados - contém ironia), experimentei a violência. Esse é o elemento generalizável da experiência particular, do acontecimento, o que permite que eu me identifique com essas histórias. Contudo, talvez porque a experiência do acontecimento também tenha a dimensão da singularidade, o meu caso não teve repercussão, e a comunidade negra decidiu se calar. Imerso em um limbo racial, a pergunta que ecoa é a seguinte: e eu, não sou também um homem negro? 

No texto Racismo e Cultura, Fanon faz a seguinte afirmação: 

Diz-se correntemente que o racismo é uma chaga da humanidade. Mas é preciso que não nos contentemos com essa frase. É preciso procurar incansavelmente as repercussões do racismo em todos os níveis de sociabilidade [...]

Reconhecendo as limitações de qualquer raciocínio que parta de um caso particular com a pretensão de oferecer um modelo explicativo abrangente, e assumindo abertamente este risco, eu me pergunto se as pautas identitárias não nos colocaram uns contra os outros, conduzindo-nos a uma reflexão perigosa segundo a qual alguns podem ser considerados mais negros do que os outros e, portanto, mais dignos de apoio. Creio que é o momento de refletirmos sobre as repercussões do racismo também na sociabilidade entre indivíduos da comunidade negra, visto que se trata de um elemento estrutural e estruturante das relações e subjetividades. 

sexta-feira, 13 de outubro de 2023

Fragmentação

Preciso esquecer você. 
Então, eu vou fragmentar momentos, lembranças, sentimentos e você, 
em pedaços pequenos que eu consiga perder. 
Talvez, só assim vou conseguir deitar e não me lembrar de você.

Quando penso em você, a angústia vem, bate em meu peito, dói e arde, 
minha mente vira uma tempestade, e meu coração seca de tanta saudade. 

Sentir essa dor me faz pensar se valeu a pena te conhecer. 
Não consigo dormir, me perguntando onde errei, 
faz-me pensar que preciso rapidamente fragmentar você. 

Vou colocar nossos momentos em uma caixa de concreto, 
jogar no mar e deixar afundar. 
Talvez assim eu consiga esquecer você. 

Você ter feito promessas que não iria cumprir 
é o mesmo que oferecer o mundo a alguém e não entregar uma simples cidade. 
É oferecer ser refúgio e não entregar um simples abraço. 
É prometer um simples amor e, no fim, entregar uma grande dor. 

Se foi tão simples pra você partir, da noite para o dia, 
por que está sendo tão difícil esquecer você?
Talvez seja pelo fato de que tudo me lembra você. 
Músicas. 
Filmes. 
Poemas clichês. 
Eu preciso muito esquecer você. 

Júlio Custódio

quarta-feira, 5 de maio de 2021

Entrelinhas #2 - Quem tem medo do Comunismo?

Fonte: Boitempo 
A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava propriedade sua o que possuía. Tudo entre eles era comum. Com grande eficácia os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus e todos os fiéís gozavam de grande estima. Não havia necessitados entre eles. Os proprietários de campos ou casas vendiam tudo e iam depositar o preço da venda aos pés dos apóstolos. Repartia-se, então, a cada um segundo a sua necessidade. José, chamado pelos apóstolos de Barnabé, que significa filho da consolação, levita e natural de Chipre, possuía um terreno. Vendeu-o e foi depositar o dinheiro aos pés dos apóstolos. (Atos 4, 32-37).
Antes de iniciarmos um bate-papo sobre essa obra de Marx e Engels que apresento a vocês nessa belíssima edição comemorativa dos 100 anos da Revolução Russa (1917-2017), quero fazer uma pequena ressalva: embora esse pequeno artigo componha a série "Entrelinhas", que iniciamos há muito tempo, meu objetivo não é revelar ideias supostamente ocultas no texto, tampouco apresentar uma análise profunda da obra. Pretendo apenas partilhar algumas impressões da primeira leitura, das reflexões que me ocorreram a partir daí e do contato com a obra nessa edição.  
O livro que tenho em mãos reúne os seguintes textos: Manifesto Comunista; Prefácio (do Manifesto Comunista) à edição inglesa de 1888, por Friedrich Engels; Teses de Abril e Cartas de Longe, de Vladímir Ilitch Lênin; e introduções (ao manifesto e às teses) por Tariq Ali. Além da beleza da composição no que se refere aos elementos gráficos, estamos diante do trabalho rigoroso de uma editora que, em 20 anos de existência, conquistou 13 prêmios. Considerando a densidade dos textos, decidi abordar nesse momento apenas alguns aspectos do Manifesto Comunista. 
"UM ESPECTRO ronda a Europa - o espectro do comunismo". Com essa frase emblemática os autores principiam o texto. E eu a escolhi apara iniciar as reflexões que não se encerrarão aqui porque uma frase semelhante vem sendo proferida, há alguns anos, por pessoas que supostamente desejam "salvar" o Brasil de uma ameaça terrível: "Um espectro ronda o Brasil - o espectro do comunismo". Essa afirmação equivocada finalmente me trouxe até Marx e Engels, e é em razão dela que inicio essa jornada. 
No que se refere à fluidez de leitura, diria que pessoas que possuem certa familiaridade com textos filosóficos podem ter mais facilidade para compreendê-lo. Entretanto, o texto (e penso que os autores também) não exige do leitor uma iniciação à Filosofia para compreensão das ideias ali expostas: o raciocínio é explícito, preciso, objetivo. Ademais, as introduções e a boa vontade de procurar informações adicionais sobre o contexto em que o texto fora produzido e os filósofos que inspiraram os autores (Hegel, por exemplo) também podem colaborar para a compreensão do texto. 
Algumas críticas amplamente difundidas a respeito do comunismo - a falibilidade de sua aplicação em modelos de sociedade ou a equivocidade da previsão dos autores em relação à extinção do capitalismo ainda vigente - revelam o total desconhecimento da obra: afinal, o Manifesto não é um manual de instruções. Toda e qualquer revolução pressupõe a ação de inúmeros elementos. À guisa de ilustração, Lênin expõe nas Cartas de Longe (presentes nessa edição) de maneira didática os fatos que contribuíram para o sucesso da Revolução Russa. Quanto à "vigência" do capitalismo, diria que o tema merece um texto à parte. Uma análise mais aprofundada. Mais leituras. Deixo apenas uma provocação: permanece vigente a que preço e por quanto tempo?
Para encerrar a pequena reflexão de hoje, gostaria de tecer um breve comentário acerca da escolha do versículo bíblico utilizado como abertura dessa reflexão. Para os autores, a religião é um instrumento de dominação que deve ser superado. Talvez por isso a escolha do versículo bíblico incomode tanto os marxistas/marxianos mais ferrenhos, quanto os cristãos mais ortodoxos. Observando a atuação de alguns líderes religiosos, tenho que concordar com eles, mesmo sendo cristão católico. Arriscaria dizer que no século XXI Jesus Cristo não seria cristão, e muito provavelmente seria preso ou morto em nome de determinados "valores", "morais", "tradições". Observando a passagem bíblica destacada, percebo que o legado deixado por Jesus Cristo é a construção de uma sociedade onde a justiça social esteja plenamente efetivada, ideal igualmente perseguido por Marx e Engels. Observando o Brasil de hoje com todos os seus problemas sociais, políticos e econômicos, refaço a você a pergunta que nomeia esse texto: quem tem medo do comunismo?

Referências

Atos dos Apóstolos. Português. In: Bíblia sagrada. Trad. Mateus Hoepers (Novo Testamento). 50 ed. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2005, p. 1287-1324. 

MARX, K; ENGELS, F; LÊNIN, V. I. Manifesto comunista/Teses de abril. Textos introdutórios de Tariq Ali. 1 ed. São Paulo: Boitempo, 2017. 


quinta-feira, 18 de março de 2021

Coração errante

O tempo passa e eu
vou perdendo a noção
Fico te olhando o tempo todo
sempre atenta, prestando atenção

Você parece incomodado comigo aqui
Mas eu não sei o porquê
Por mais incomodado que você pareça
ainda assim, tu olha pra mim
 
Seus olhos são ágeis
e registram cada momento
e minha mente e coração, devagar,
registrando todo o sentimento
 
Impaciente, descontente
você olha ao redor o tempo todo
mas a hora não passa
e ficamos encarando um ao outro
 
O que eu fiz de errado?
Por que você anda tão distante?
Será que meu coração errante
tem te deixado chateado?
 
Kaah Maxine

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

Brincadeira literária*

As redes sociais são uma fábrica de distrações. A última que tive contato foi em forma de brincadeira literária, e consistia em publicar capas de livros de sua preferência. O número de indicações era limitado em sete e não poderia mencionar nada sobre os livros: apenas a imagem. Triste desafio para quem adora conversar sobre os livros, falar sobre as características das personagens e até mesmo dar e receber spoilers — mas somente em situações previamente autorizadas! Como poderia ficar sem falar das leituras que tanto gosto? Como conter toda a empolgação ao narrar minimamente a sinopse de um livro ou explicar que é impossível não torcer pela personagem de tal história? Como não compartilhar o brilho nos olhos ao lembrar de um clássico que me tocou a alma? De fato, seria um desafio. Mas os muros para um leitor nunca são tão altos e, seguindo os passos de Max, um judeu que ficou escondido no porão de uma Menina que roubava livros, vou dar um jeito de escrever o que me transborda o peito. Só não vou desenhar, porque essa habilidade eu não tenho!
A tarefa inicial: separar os livros! Tarefa fácil, se fosse uma lista de 100 livros em vez de 7. Quero todos, pode? A cada livro que eu pegava era um momento, um cheiro, uma pessoa, uma linha de ônibus, um contexto de vida, um dia frio, um bom lugar, um Djavan...Viajei. Mas, vamos aos livros.

O primeiro livro que habita todas as minhas listas é A Insustentável leveza do Ser, de Milan Kundera. Que delícia de nome, que delícia de história! Amo esse livro e não consigo explicar porquê o amo. Dramático, inquietante, estranho e filosófico. Esse livro me mostrou o quanto somos socialmente pequenos, mas imensos enquanto seres humanos. O quanto somos complexos e vastos. Foi indicação de uma amiga, empréstimo, logo em seguida comprei o meu. Não queria apenas possuir a história, queria abraçar o livro. Eu não conseguia dormir sem ler uma página que fosse. Esse livro me conduziu a profundas reflexões.

Segundo livro, A Mulher desiludida, de Simone de Beauvoir. Essa mulher dispensa apresentações e o livro é maravilhoso. Apesar das diferenças de época, continua atual. São três contos que narram os medos, a desesperança e a condição da mulher na sociedade. Quando li esse livro estava despedaçada. As mulheres dos contos também estavam, e de certa forma isso ajudou a me reconstruir. Eu me vi naqueles contos e arrisco a dizer que aquelas mulheres se viram em mim. É a magia da leitura.

Terceiro livro, Frankenstein, de Mary Shelley. Outra mulher que dispensa apresentações. Mary Shelley foi uma mulher à frente de seu tempo. A primeira edição de Frankenstein foi lançada em janeiro de 1818: são 200 anos e ainda nos fascina. Apaixonada pela criatura, sofri ao seu lado na maior parte do tempo. Apesar de ser considerado um monstro, ele é sensível e lida com as mais fundamentais questões humanas. Foi interessante acompanhar essa criatura que desperta para sua triste condição ao ser abandonada pelo seu criador,  e poder entender suas revoltadas, seus anseios, seus medos.

Quarto livro, As cem melhores crônicas brasileiras, vários autores. Esse aqui eu considero um golpe que estou dando, pois será cem em um! Temos Machado de Assis, Lima Barreto, Olavo Bilac, Rubem Braga, Vinícius de Moraes, Oswaldo de Andrade, Alcântara Machado, Rachel de Queiroz, Mario de Andrade, Humberto de Campos, Graciliano Ramos, Carlos Drummond de Andrade, Stanislaw Ponte Preta, Millôr Fernandes e outros pesos-pesados da nossa literatura. As crônicas são apresentadas por anos, começando em 1850. Dessa forma, o leitor pode perceber as mudanças nas formas de narrativas, como também as mudanças dos contextos sociais. Ganhei de presente de um tio, também filósofo. Ler esse livro foi o mesmo que consumir pedaços de felicidades, ainda é uma doce recordação. Crônica sempre foi um dos meu estilos prediletos. Esse livro me acompanhou por muitos anos, ali na bolsa, guardadinho. Gostava de abri-lo e lê-lo ao acaso. A transição da escrita sempre me trouxe um certo conforto de que, apesar dos pesares, tudo passa.

Quinto livro, O Estrangeiro, de Albert Camus. Sempre que lembro desse livro paro por alguns segundos e sinto um estranhamento. O relato é em primeira pessoa, sobre a vida de M. Mersault: um homem que vive sua vida de forma livre, mas sem a consciência dessa liberdade. A personagem não se afeta com os acontecimentos em sua vida e não vive uma vida de acordo com as normas sociais, mas como deseja viver. Camus aborda a questão do significado que a sociedade tenta atribuir à existência. Quem nunca se perguntou: qual o sentido da vida? Será que tem? Li esse livro no período da faculdade. Devorei, me senti estranha. Voltei a ler alguns anos depois, senti novamente o estranhamento. Ouvi dizer que na terceira vez é melhor.

Sexto livro, A trilogia Jogos Vorazes, Em Chamas e A Esperança, de Suzanne Collins. Outro golpe à vista, três em um! Do grupo das literaturas populares. Caiu nas graças dos adolescentes, virou filme e fez um enorme sucesso. A história se passa em um futuro distópico onde os Estados Unidos da América, após total destruição, se transforma em 12 distritos e 1 capital. Para manter um determinado controle e ausência de rebeliões, a capital cria os Jogos Vorazes. Anualmente, duas pessoas de cada distrito são sorteadas para participar desse reality show mortal. Todos são levados até uma arena montada tematicamente e lutam até a morte. Esses jogos se assemelham aos combates entre os gladiadores romanos. Por que eu gosto disso? Com toda a certeza a autora bebeu de fontes preciosas como 1984, de George Orwell. Toda a narrativa levanta questões políticas de manipulação midiática, totalitarismo, opressão, discurso de ódio, consumismo, desigualdade social e fascismo. Além disso tudo, temos todo o drama da personagem que nos prende. Li os três livros seguidos. Ainda lembro da sensação de entrar nesse universo distópico e caótico do choro da personagem, dos barulhos das bombas, da raiva e de algumas alegrias, bem poucas alegrias.

Sétimo livro, Sociedade sem lei, pós-democracia, personalidade autoritária, idiotização e barbárie, de Rubens R. R. Casara. Com pesar, chego ao sétimo e último livro. Foi uma escolha difícil. Existem ótimos concorrentes para essa posição, mas julguei necessário escolher esse livro por conta do momento em que estamos vivendo. Também precisamos olhar e estudar sobre o nosso contexto atual. Casara é juiz de direito no Tribunal de Justiça no Rio de Janeiro, e em seu livro trata dos danos causados à sociedade pelo capitalismo e sistema neoliberal onde o homem não é mais a medida de todas as coisas e sim o dinheiro — o homem não é coisa alguma. Fala-nos de uma sociedade construída pela racionalidade neoliberal, que resulta em uma nova economia psíquica gerando, assim, pessoas sem limites e consequentemente uma sociedade sem limites. Leitura muito pertinente. Ainda não finalizei o livro, pois para compreender ou ampliar o conhecimento vou lendo em paralelo outros livros. Desse em específico fui para Psicologia das multidões, de Gustave Le Bon, e voltei a ler Educação após Auschwitz, de Adorno. E assim, sem perceber, dou mais um golpe e indico outros dois.

O mundo da leitura é isso: transitar por vários mundos, aprender e reaprender. A leitura é também a amplitude do sensorial: é sentir uma época, um desejo, um sentimento, um aroma. É ouvir uma melodia que não está presente nos seus ouvidos. Aprender novas línguas, novos povos. É o encontro de novos olhares. É na leitura que muitos podem viver em nós. Ler é a principal ferramenta para a nossa educação. Através da leitura amplio meu conhecimento, meu repertório. Passo a olhar o mundo como um sujeito crítico, posso transformá-lo.

Talvez seja assim só para mim e para você seja de outra forma. Qual a sua forma?

Pois bem. Essa lista não tem muita coerência: está tudo misturado! Tem um pouco de tudo que gosto, mas sei que desconheço um mundo de coisas que poderia vir a gostar. Uma vida não é suficiente para ler tudo que há para ser lido, mas uma certeza eu tenho: que sempre vou amar livros e sempre vou amar ler. Livro é tão bom que deveria ser declaração, tipo: eu te LIVRO!

*Texto publicado originalmente no site do Espaço Monica Aiub

sábado, 1 de agosto de 2020

Eterno retorno*

— O café está quase pronto, amor.
— Só mais cinco minutos…
Esse é o meu ritual matinal. Tentar, sem êxito algum, prolongar o tempo de vida útil dessa efêmera sensação de prazer. Manter-me distante do trabalho e das coisas que me afligem. “Ora, ora. Marx diria que o trabalho dignifica o homem. É por meio do trabalho que o homem transforma a natureza ao seu redor, forjando a si próprio”. Foda-se Marx. Prefiro a etimologia que qualifica o trabalho como um instrumento de tortura. Aliás, não é esse o mesmo Marx que afirma ser o trabalho o meio pelo qual o trabalhador vende sua força produtiva tornando-se uma mera engrenagem da máquina que produz lucro às custas de vidas humanas? É cedo demais para pensar nessas coisas, mas não consigo me desvencilhar.
— Está pronto, amor. Venha antes que esfrie!
— Tô indo!
Uma xícara de café frio é pior do que trabalhar. Café fresco, bem quente e doce é outra boa sensação da vida, daquelas que queremos preservar infinitamente. Porém, o café esfria, e a quantia que permanece na cafeteira italiana já não tem o mesmo sabor e temperatura da primeira dose. Contra minha vontade — vontade impotente — me encontro de novo com a fria e amarga realidade expressa naquele dito popular: “Tudo o que é bom dura pouco”. Talvez não seja sempre assim. Talvez exista um “quase” dentro desse “tudo”.
— Que dia é hoje, meu bem?
— Terça-feira. 12 de maio.
O tempo.
Os diversos modos de vê-lo passar me trazem à recordação — de maneira muito vaga — o que Nietzsche dissera acerca do eterno retorno. Já não sei se era esse o sentido que o filósofo quis imprimir à expressão, mas com certeza ela define meu esforço constante em afastar o que me aflige e…
— O café está quase pronto, amor.
— Só mais cinco minutos…
Esse é o meu ritual matinal. Tentar, sem êxito algum, prolongar o tempo de vida útil dessa efêmera sensação de prazer. 

*Texto publicado originalmente na seção Puxadinho do terceiro volume da Revista Habitat - Artefato Edições. 

terça-feira, 14 de julho de 2020

Dentro da noite, dentro de mim

É à noite, enquanto a maioria dorme, que algo em mim desperta
Tantas coisas que pensei e queria compartilhar com o mundo
Das piores noites nasceram as coisas mais bonitas e mais tristes
Há tanta beleza na tristeza...
Acho que o inverso cria o verso...
Amores, ideias, medos, culpas, culpas, culpas...
Sempre tão juntos...
Sempre me molhando o rosto, me secando a alma... 
E paradoxalmente regando meu novo ser
Amores trazendo meus maiores medos
As culpas que assumi pra mim que nem eram minhas...
E novamente me culpo de novo por já ter me culpado
Os ideais, eu claramente sei que não fui eu que criei.
Vou responsabiliza-los por tudo...
A bebida foi a coisa mais útil, temporariamente mais útil pra fugir daqui
Mas quando voltava... Queria estar bêbada de novo...
De vez em quando me olhava no espelho e me perguntava: onde eu estava?
E agora estou aqui...
Um pouco mais lúcida, desfazendo ideais, desfazendo culpas, tentando me encontrar e me aceitar
Os medos... Não foi o pior de tudo...
Quantas pessoas sofrendo pelo mesmos motivos?
Um passo atrás do que aqui me encontro.
Lembrem-se: O inverso faz o verso
Dois lados de tudo
Fecho a porta, fecho a janela, fecho a boca e os ouvidos
Dentro de mim
Todos os meus encontros já vividos
Eu não posso me sufocar aqui dentro
Não posso me trancar...
Preciso me reescrever
O contato com o mundo me adoece e me cura
Escuto aquilo que me disse...
Lembra?
Como posso me achar só.
O que muda aqui dentro é sutil e ao mesmo tempo tão imenso...
Quem ou o quê encontrarei quando eu sair, não sei,
Mas se preparem para me encontrar...

Vanuza Alves

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Diário de Simone*

Já não basta a dificuldade de acordar mulher todos os dias em nossa sociedade, agora temos de acordar mulher em meio a uma pandemia. Nossa rotina já é pesada, agora então, parece que Sísifo não está tão sozinho assim. Talvez você esteja me achando dramática — talvez eu seja mesmo — mas é bem provável que no fim dessas linhas você assuma que na verdade não iria querer trocar de pele comigo ou com qualquer outra mulher e, sendo bem sincera, a minha vida perto da vida de algumas mulheres que conheço é muito, muito tranquila e privilegiada.
“Bom dia” me diz o celular e o meu primeiro pensamento é: estou aqui de novo, vamos lá! Preciso de um café. Minha casa não se recuperou da noite passada, eu não me recuperei da noite passada. Pia tem louça, sofá tem roupa, livros no sofá, no rack, no chão, a gata... A gata precisa de comida, mas antes deixa eu ver meu filho. Saio da cama e acalmo meu coração vendo sua respiração, ele ainda dorme. Verifico sua temperatura, não parece doente e eu recebo como mágica um golpe de energia para descer as escadas. Ignore a bagunça: você não vai dar conta mesmo! Preciso passar o aspirador quando voltar. Tempo curto, muitas coisas, preciso me arrumar... O café! Mas, antes, a gata! Sentada no sofá verifico os noticiários. Coronavírus e suas derivações, em minha cabeça muitas reflexões: como vamos fazer com as favelas? Como estão meus alunos? Céus! E os moradores em situação de rua? Teve festa na rua de baixo. Tem muitos funcionários doentes no hospital — você não sabe ainda, trabalho em hospital — tem muita gente nas ruas preciso passar no mercado tenho dois atendimentos hoje preciso escrever aquele texto esqueci de responder a mensagem do Carlos preciso ler aquele texto do Adorno e aquele outro da Arendt como eu odeio esse presidente! Nossa... olha a hora! 
Saio de casa, queria mesmo era ficar. Minha irmã está de home office, minha mãe sempre trabalhou em casa, minha sobrinha e meu filho estão com os estudos a distância — ainda bem! Coração segue menos aflito.
— Tchau, Mãe!
— Tchau, Simone!
Sinto um pesar na sua despedida, é sempre assim. Ela teme e eu temo também, ambas fingimos que não. É próprio da mulher fingir que está tudo bem para poder continuar. Há de continuar, há de se manter. Muitas mulheres são assim, tivemos que nos construir dessa forma. Não é a primeira vez que saio de casa com medo, não é a primeira vez que minha mãe fica em casa com medo. Lidamos diariamente com ele, descansamos pouco do medo. As mulheres temem por suas vidas todos os dias e naturalizar isso também é um tipo de doença. 
A chegada ao hospital é tensa: você já entra pensando em como se proteger, mas como? Se falta EPI? Não tem para todos. Vamos pensar nos que precisam mais! Quem precisa mais? Quem lida com os pacientes, claro! Certo, mas a contaminação já é comunitária, o que significa que os profissionais podem passar uns para os outros... Vamos de “uni duni tê”?
Ao caminhar pelos corredores você se depara com diferentes profissionais, não é tão simples descobrir em qual setor aquele profissional trabalha ou de qual setor ele acabou de sair ou passar. O que ele estava fazendo antes de estar aqui? Pode estar infectado? O vírus não impôs apenas o distanciamento social, impôs uma sombra de desconfiança. Um vulto de doença em cada um que se aproxima. Nós mulheres também já estamos acostumadas com isso. Como você acha que é andar em uma rua escura e ouvir passos atrás de você ou quando você pede um carro por aplicativo? Até mesmo quando você vai conhecer alguém pela primeira vez, será que ele é um estuprador? O vulto da violência está em todos os homens até que se prove o contrário. Enfim, cruzo o primeiro corredor e nesse momento começo a sentir meu corpo um pouco mais rígido. Bem vinda, tensão! 
Ufa, cheguei segura ao meu setor... só que não! “Simone, tem aquele processo para entregar”. “Simone, fulano não veio”. “Simone, falta álcool”. “Simone, precisa ver a escala”. “O material para o paciente João não veio”. “O faturamento está atrasado”. "O Papa te ligou duas vezes”. “Cinderela! Cinderela! Cinderela...” Ops, volta! Desculpa, me empolguei. Lava as mãos primeiro e coloca sua máscara — é o que o bom senso diz e obedeço. Devido ao estado de pandemia adotamos algumas medidas protetivas, uma delas foi a redução do horário de trabalho. Lembro como se fosse ontem o apoio da chefia: “Até podemos reduzir, mas saiba que nada de errado pode acontecer, se não...". Nesses momentos, o acolhimento é o que conta, não acham? Afinal de contas, o que conta mesmo é a Mais-valia. A pandemia fez a gentileza de desvelar muitas coisas: ela desnudou tudo e todos, desde o sistema neoliberal e o quanto ele não se sustenta em toda sua mesquinharia até seu vizinho que limpou as prateleiras do supermercado. Não é mais necessário tanto esforço para ver quem as pessoas são. Foi mais ou menos como no período das eleições presidenciais, mas agora a rima é outra: vida X economia. Não, espere! A rima continua sendo a mesma: “Dinheiro: precisamos salvar. As vidas? Só se tempo sobrar!”
O setor em que trabalho é frequentado por muitos médicos. Vários desses profissionais estão bem cientes dos riscos que o novo vírus oferece, porém alguns estão confiantes que nada os atingirá e estão tão seguros que acreditam que também nada acontecerá com o restante da população, apesar de tratarem da população doente. Uma postura que me faz pensar como se deu esse processo um tanto alienante e alienador, tornando-os cada vez mais afastados de si mesmos e dos outros. Esses dias, trabalhando tranquilamente em minha sala, um dos residentes me procura para tirar uma dúvida, como faz de forma habitual. Se aproximou e muito de mim, o que não havia nenhuma necessidade, então pedi para que cumprisse o protocolo de distanciamento. Além de não ser atendida, fui surpreendida com um abraço forçado. Pois é! Ele me abraçou à força porque eu pedi para que ele respeitasse o protocolo que ele já deveria estar respeitando. A pandemia nos proporcionou uma nova modalidade de abuso: aquele que tenta te transmitir um vírus porque você reclamou do distanciamento — coitada da pandemia, não merece levar a culpa por estar de saia curta, nesse caso, por ele ser um abusador em potencial. Fui obrigada a empurrá-lo. Deveria ter feito mais, mas não fiz. Como a maioria dos homens, ele acredita que pode e está acostumado a poder e, pior, está acostumado a sair ileso de situações como essa porque nós mulheres, apesar de sabermos o que fazer na hora do abuso, de alguma forma, ficamos sem reação. Ele é médico, homem, classe média alta. Tudo isso conta muito no local onde trabalho. Qualquer reclamação que eu fizesse não daria em absolutamente em nada. Resolvi recolher minha cara e meu ódio do chão. Claro que eu sei que em uma escala de abusos esse não é dos piores, mas estamos falando aqui da violação da minha integridade, da minha vontade e do meu direito de não ser tocada — esse corpo aqui é meu, senhor! Hei! Hei! Hei! Do meu direito de ter minha saúde preservada. Mas, sabe o que é ainda pior? É termos uma escala para abusos. Pergunto-me se ele também abraça homens à força. Essa situação me fez lembrar do caso da médica Lorena Quaranta, que foi assassinada pelo enfermeiro e seu namorado Antonio De Pace. A justificativa de Antonio pela morte de Lorena foi ela ter passado o vírus covid-19 para ele. Ambos trabalhavam no mesmo hospital na Sicília, Itália. O mais suspeito é que os testes resultaram negativo para o vírus em ambos. Isso monstra como é fácil para os homens descontar sua raiva, seu descontentamento, sua ira sobre as mulheres. Como seu desiquilíbrio é direcionado para nós. Em contrapartida nós, mulheres, na grande maioria, adotamos uma postura de passividade frente aos homens. Somos culpadas pelas roupas que usamos, pelo horário em que saímos, se bebemos, se lutamos. A verdade é que nos culpam porque somos mulheres.
Hora de voltar pra casa, acabou... a metade do dia. 
Chegar em casa, deixar tudo no carro: tire os sapatos dentro do veículo, vá direto para a lavanderia, lave bem as mãos, tire as roupas e coloque-as em um saco, passe álcool em gel, vá direto para o chuveiro e não toque em nada! 
Em minha casa tenho 3 pessoas do grupo de risco: minha irmã finalizou recentemente o tratamento de câncer de mama, é hipertensa e diabética. Minha sobrinha é imunodeficiente, não produz anticorpos suficientes. Minha mãe tem 65 e possui habilidades de subir em telhados. Banho... Tento liberar a musculatura, começo a listar as tarefas mentalmente. Tensão, não foi embora ainda? 
Morta de fome. Vou comer qualquer coisa, bom senso não deixa. Precisamos reforçar a imunidade. Cozinha, lava, seca, guarda, limpa, aspira, respira, não pira. Tem cerveja? Não tem, só vinho. Serve? Não posso, vou atender — vocês não sabem, mas também sou terapeuta, segunda profissão. Para nós, mulheres, é muito comum o acúmulo de atividades. Historicamente muitas coisas são colocadas nos nossos ombros: casa, filhos, maridos, trabalhos — alguns até são remunerados, mal remunerados. Lembrei da Dona Cleonice, a empregada doméstica, uma das primeiras vítimas do Coronavírus no Rio de Janeiro. Contraiu o vírus na casa onde trabalhava de segunda a sexta. Sua empregadora retornou infectada da Itália e achou que era certo não dispensar seus empregados. Dona Cleonice era hipertensa e diabética. Seu nome não foi mencionado nas primeiras reportagens, era tratada apenas como "doméstica". Em uma sociedade que nos separa por classes e por objetos a serem usados, o que basta mesmo é saber quanto você vale. E uma empregada doméstica? Vale quanto? Seu nome era CLEONICE GONÇALVES, tinha 63 anos. 
Os atendimentos estão girando em torno da pandemia, todos estão girando em torno da pandemia. Ela nos consome e nós a consumimos, mas não tenho tempo de ser consumida: preciso verificar as lições do filho. 
— Como foi a aula, Murilo? 
— Bem, mãe! 
— Fez as atividades? 
— Sim mãe, você fez comigo. Esqueceu? 
— Sim filho, esqueci! 
Descansar. Vou ler, vou escrever aquele texto, vou planejar aquele grupo, responder aquela mensagem, quer um suco, filho? Vou ver um filme, nossa... olha a hora! 
“Bom dia”, me diz o celular e o meu primeiro pensamento é: estou aqui de novo, vamos lá! Preciso de um café.

*Texto publicado originalmente no site do Espaço Monica Aiub.

domingo, 14 de junho de 2020

Trabalho dos sonhos*

Que pesadelo mais sombrio! 
Estava num amplo galpão fabril, mal iluminado, repleto de camas hospitalares. As camas estavam ocupadas e dispostas em fileiras, como numa grande linha de produção. As pessoas que as ocupavam, aparentemente saudáveis, tinham conectados às suas cabeças eletrodos cujas extremidades encontravam-se conectadas a uma máquina semelhante a um computador. Máquinas, fios, pessoas e camas hospitalares repetiam-se sequencial e infinitamente compondo um cenário de ficção científica. Ao soar de um sinal, as luzes se acenderam. Paulatinamente, as pessoas que ocupavam as camas começaram a se levantar e a desconectar os fios que as prendiam às máquinas. 
— Quinze minutos para o café! 
Todos pareciam estar muito bem. Enquanto comiam, conversavam sobre os mais diversos assuntos: família, política, religião, economia, saúde, educação, a viagem das últimas férias... 
O sinal tocou novamente indicando o término do café. Todos retornaram aos seus lugares, dando continuidade às suas tarefas. Caminhando entre as camas observei que as telas das máquinas exibiam paisagens belíssimas — como se fosse possível apresentar em imagem a própria felicidade. Recordei-me de um texto de Bauman que denunciava o caráter parasitário do capitalismo, e então me dei conta de que todas aquelas pessoas estavam sonhando. Seus sonhos eram captados por meio dos eletrodos e transferidos para as máquinas. De lá seriam vendidos por um custo altíssimo a uma pequena parcela da sociedade que, diante de uma crise sanitária de proporções globais, se via incapaz de sonhar. Tentei chorar e não consegui. Gritei a plenos pulmões, mas meus lábios eram incapazes de projetar qualquer som. 
— Álvaro! Álvaro! 
— O que foi? 
— Você estava longe, meu amigo. A pausa acabou. Temos ainda muitos sonhos a produzir. Volte ao trabalho! 
Liguei a máquina. Reconectei os eletrodos em minha cabeça. Deitei na cama...

*Texto publicado originalmente no segundo volume da Revista Habitat - Artefato Edições

segunda-feira, 1 de junho de 2020

O que podemos aprender com Heráclito de Éfeso

Filósofo pré-socrático, viveu entre 540 e 480 a.C. 
Como os demais filósofos do mesmo período, Heráclito estava interessado em compreender a origem de todas as coisas e a dinâmica da natureza a partir dela mesma, sem precisar recorrer aos antigos mitos ancestrais. 
Para Heráclito, as constantes transformações que ocorrem no mundo natural são a sua característica mais fundamental. Para ele “Tudo Flui” e “Nada é permanente, exceto a mudança”, tanto que é impossível “banhar-se duas vezes no mesmo rio” pois, quando mergulho no rio pela segunda vez, não sou mais a mesma pessoa e nem o rio o mesmo rio. Heráclito também aponta que o mundo está repleto de contradições ou pares de opostos. Se jamais ficássemos doentes, não saberíamos o sentido de gozar de boa saúde. Se jamais houvesse guerra, nunca daríamos valor a paz. “Deus é dia-noite, inverno-verão, guerra-paz”. Esse Deus por ele mencionado é uma razão universal, é essa natureza cheia de contradições. O termo utilizado por ele constantemente é logos, que quer dizer “razão”. Parece um tanto pessimista a filosofia de Heráclito quando observamos sua fugacidade, mas acredito ser muito mais prejudicial não compreendermos as transformações e as mudanças a que estamos sujeitos enquanto seres viventes nesse mundo em constante movimentação. 
Essa é uma síntese da filosofia de Heráclito. Se você curtiu, pesquise mais sobre o filósofo. No fim do texto vou deixar indicação de leitura. 
Certo. Vamos deixar isso mais legal e usar o conceito apresentado para refletirmos sobre nossas vidas. 
Estamos acostumados a lidar com a vida como se algumas coisas fossem estáticas ou como se pudéssemos controlar as mudanças que nela ocorrem. É compreensível: afinal de contas fazemos planos, tomamos decisões a médio e a longo prazos, precisamos de uma certa estabilidade. Parece ser impossível manipular tanta “fluidez” assim. A ideia de mudança é muito mais aceitável quando a vinculamos a algo que aceitamos ou queremos que mude. No entanto, sempre existe uma parte de nossas vidas sobre a qual não pensamos, não aceitamos ou não queremos que se altere de alguma forma, principalmente de formas inesperadas. Esquecemos que o mundo possui uma outra dinâmica, as coisas acontecem e nos atravessam sem a nossa permissão e quando percebemos tudo mudou. Fazendo uso do conceito apresentado por Heráclito, precisamos considerar a natureza em seu próprio devir (tornar-se, vir-a- ser) que não nos consulta previamente. O logos da natureza ou do mundo que muitas vezes desconhecemos não está em nosso domínio. Quando a mudança se apresenta precisamos, de alguma forma, lidar com ela. As perguntas são: como você lida com as transformações do mundo? Para você é tranquilo? Consegue identificar suas formas de lidar com as mudanças? Você é mais flexível ou menos flexível para mudanças? 
Não tem certo, nem errado: há apenas as suas reflexões acerca do seu modo de ser e de perceber as transformações do mundo que lhe cerca. 

Indicação de leitura: Os Pré-Socráticos - Vida e Obra. Coleção "Os Pensadores". São Paulo: Editora Nova Cultural, 1999.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Linhas de fuga*

Linhas de fuga. 
É isso. 
Linhas de fuga. 
Não sei ao certo de que modo Gilles Deleuze e Félix Guattari desenvolveram esse conceito em suas obras, mas eles não se importariam em me emprestar por instantes ao menos alguns matizes dessa concepção. Eles nunca pretenderam estabelecer uma escola de pensamento que viesse a lhes interpretar, post mortem, de maneira exegética. Creio até que, se estivessem vivos, eles me diriam: 
“ — De que maneira esse conceito funciona em seu mecanismo? Quais os fluxos ou cortes de fluxos podem ser estabelecidos entre vocês?”. Eles fariam essas perguntas por uma razão muito simples: somos máquinas. Máquinas desejantes! Maquinar é a atividade própria da máquina. É possível maquinar linhas de fuga diversas: linhas que vão de si para si, de si para o outro. De si para o mundo. Linhas de fuga revolucionárias. Essa é uma atividade que requer doses de sobriedade e embriaguez. Sobriedade para traçar estratégias, estabelecer distanciamentos e contiguidades, tangenciar curvas, dobrar obstáculos. Embriaguez para caminhar enquanto muitos correm, para escutar enquanto muitos falam, para silenciar enquanto muitos gritam. Uma vez em movimento, Deleuze e Guattari nos diriam que essas linhas de fuga podem nos sujeitar a acontecimentos cuja experiência dependerá de uma série de agenciamentos: você aqui, comigo, nesse texto. É um acontecimento das linhas de fuga que maquinei. E talvez das suas também. E que só foi possível em função de uma série de agenciamentos. Ou circunstâncias. Poderia não ter acontecido, mas aconteceu. Já que está por aqui, proveito para perguntar: quais são suas linhas de fuga?

*Texto publicado originalmente no primeiro volume da Revista Habitat - Artefato Edições.

segunda-feira, 4 de maio de 2020

O ensino de música na educação bancária

Será a partir da situação presente, existencial, concreta, refletindo o conjunto de aspirações do povo, que poderemos organizar o conteúdo programático da educação ou da ação política. O que temos de fazer, na verdade, é propor ao povo, através de certas contradições básicas, sua situação existencial, concreta, presente como problema que, por sua vez, o desafia e, assim, lhe exige resposta, não só no nível intelectual, mas no nível da ação” (FREIRE, 2019, p. 119).
Na realidade prática das escolas privadas que, sobretudo hoje, atendem em grande parte a chamada classe média, é facilmente percebida a presença e suposta alta valorização do ensino de arte, principalmente, o da música. Não por esta ser uma linguagem artística de maior valor, ou por preferência específica daqueles que formulam a matriz curricular do colégio — ainda que isso possa de fato influenciar — mas sim por seu resultado comercial, que muito dialoga com a cadeia de indústria fonográfica hoje dominante. O educador musical que chega à sala de aula na esperança e anseio de, enfim, pôr em prática toda a bagagem teórica adquirida em três ou quatro anos de formação nos cursos de licenciatura da área, certamente sente-se rapidamente perdido e desanimado em sua atuação. Anos de estudo e suposto preparo para, agora, parecer que nada funciona? Que todas as “fórmulas” de sucesso metodológico em música não contemplam as reais necessidades da escola e, por consequência, de seus alunos? É provável que, em uma primeira leitura e reflexão sobre a situação, sejam essas as perguntas surgidas. Mas cabe novas questões que podem alterar todo o rumo de pensamento do educador nesse momento:

1. Quais são essas reais necessidades da escola com as aulas de música?
2. O que então esperam e precisam de fato os alunos de sua aula?

Respondidas essas duas, criticamente e com distanciamento, pode ser proveitoso se fazer mais estas questões: 

3. Essas necessidades da aula de música, apresentadas pela escola, tem qual objetivo? 
4. Como se sentem os alunos diante dos “caminhos” deste objetivo: animados? Desanimados? Curiosos? Cansados?

Se, ao se permitir tais perguntas, o educador chegar a uma conclusão geral de que o objetivo final da escola com suas aulas é uma apresentação, por exemplo, talvez haja um problema. Se os sentimentos envolvidos na pergunta de número 4 forem “desanimados”, “cansados”, como sugeridos, daí o problema é ainda maior.
A educação libertadora que se opõe à educação bancária, como proposto pelo educador Paulo Freire em seu livro Pedagogia do Oprimido (2019), abre nossa visão para o seio do problema real dessa angústia prática na educação musical. Quando Freire diz: “Será a partir da situação presente, existencial, concreta, refletindo o conjunto de aspirações do povo, que poderemos organizar o conteúdo programático da educação ou da ação política”, pode-se entender que qualquer projeto, tópico ou conteúdo abordado em aula deve surgir a partir das necessidades dos educandos, daqueles que de fato participam da aula, e não da necessidade institucional. Não é comum perceber um desencontro entre o anseio da turma para com a aula e os anseios institucionais da escola com esta mesma aula? Será que este desencontro não nasce justamente porque um não contempla o outro? E por que um não contempla o outro? Por que escola e alunos, que deveriam estar unidos num mesmo objetivo, se desencontram? Cabe aqui uma quinta e fundamental pergunta:

5. A quem ou ao que a escola serve?

Observe o dia a dia escolar. Suas reuniões pedagógicas — caso estas ocorram e os pedidos e questionamentos por parte da direção e/ou coordenação pedagógica: você percebe a citação recorrente de “pais”/“mães” como sujeitos nesses pedidos? Se sim, parece, ainda que de longe, que estes exercem algum domínio ou influência sobre os caminhos traçados pela escola? Muito provavelmente, diante de todo este cenário aqui exposto, tanto tais citações quanto sua influência são verdadeiras. E isso está diretamente ligado às suas aulas, caro(a) educador(a). Se pais e/ou mães são identificados como influenciadores nos caminhos que a escola traça, uma conclusão é evidente: a escola serve aos pais e/ou mães dos alunos, não a eles. E talvez esteja aí a falha geradora de toda a instituição. 
Pensemos nessa linha de “quem-serve-a-quem” dentro da escola, seguindo o raciocínio construído até então:

Fonte: o autor, 2020. 

A escola serve aos pais e/ou mães. Para que a escola possa atender aos pedidos dos pais e/ou mães, ela precisa de uma rede — pessoas — que a auxilie nessa conquista. Quem são essas pessoas? Quem forma essa rede que desenvolve diferentes atividades e ações que resultam em algo escolar — seja uma prova, uma feira, uma apresentação e etc? Só uma classe específica dessa rede me vem à mente: os professores. Seria lógico então, nesse raciocínio, considerar que os professores servem a escola, ampliando nossa rede:

Fonte: o autor, 2020. 

Nessa hierarquia os professores também necessitam de braços que possibilitem sua parte ser feita. Esses braços, como deve ser fácil a todos concluir, pertencem ao corpo discente, em outras palavras, aos alunos. 
Sendo o alunado uma massa técnica de indivíduos cujo objetivo escolar não ultrapassa a rasa função de cumprimento “estético-burocrático”, suas atividades pedagógicas em quaisquer disciplinas, inclusive nas linguagens artísticas, como música, se tornam superficiais e perdem a essência que está exatamente no desenvolvimento do pensamento crítico, analítico e reflexivo. O modelo de educação bancária, como propõe Freire (2019), nada mais permite aos estudantes do que tornarem-se depósitos de conteúdos previamente estabelecidos para eles. A educação musical, por sua vez, choca-se a esse propósito burguês no âmago de suas diretrizes que vem ganhando destaque de meados do século XX até hoje: realizar modelos de ensino artístico a partir dos saberes prévios do grupo a quem as aulas se destinam e a elas, consequentemente, tem todo o domínio dos caminhos que deve seguir. Uma vez que essa liberdade didática não lhes é dada, o ensino da arte perde sua potência singular de resistência ao modelo tradicional de ensino, tornando-se igualmente parte do mesmo sistema castrador e regulador das estruturas socioeconômicas — bem como de suas desigualdades consequentes — e quebrando possíveis expectativas nos educandos, que pouco ou nenhum valor enxergarão no fazer e educar artístico. 
A visão bancária da educação em nenhum momento entendeu o ensino de arte — seja qual for a linguagem — como processo intrínseco da educação integral e de direito universal de todo e qualquer indivíduo. Pelo contrário, a entende e manipula seus desdobramentos apenas com o intuito de manter os propósitos capitais que uma educação como produto defende. Como educadores, alinharmo-nos a essa lógica é tornar necrófila — tomando de empréstimo outro termo adotado por Freire (2019) — toda e qualquer justificativa que se possa dar para o incremento e ampliação do espaço e valorização do ensino de arte na educação básica. Se, de alguma forma, sua inserção nas escolas-banco não for minimamente subversiva à esta lógica, é possível que em pouco tempo não haja mais sequer a necessidade do showbussiness que ainda nos mantém, mesmo em tais condições, no espaço educacional privado.


Referências

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 70 ed. São Paulo: Paz & Terra, 2019.



Junior Azuos

Educador musical e pianista, graduado no curso de Licenciatura Plena em Música do Centro Universitário Fiam-Faam. Atua como educador em escolas filantrópicas e da rede privada de educação infantil e ensino fundamental. 

Facebook: facebook.com/juniorazuosmusica
Instagram: instagram.com/juniorazuos

segunda-feira, 20 de abril de 2020

Entrelinhas #1 - A mulher dos pés descalços de Scholastique Mukasonga: um conto de fadas às avessas

Profª. Ma. Carolina dos Santos Rocha
Secretaria da Educação do Estado de São Paulo - Seduc/SP
E-mail: carolrocha83@yahoo.com.br

Fonte: Editora NOS

Em primeira pessoa, a narradora-personagem nos apresenta a mola propulsora deste livro: sua mãe, Stefania, uma mulher forte que busca incansavelmente pela sobrevivência de seus filhos e cujo único desejo era que seu corpo fosse coberto por suas filhas, pois segundo a tradição daquele povo, ninguém podia ver o corpo da mãe desnudo, apenas as filhas poderiam cobri-lo. No entanto, devido ao massacre de Ruanda, a autora não pode enterrar seus mortos, tão pouco cobri-los, mas oferece as palavras de seu romance como mortalha, uma homenagem a tantas mulheres ruandesas que perpetuaram a história de seu povo porque resistiram à violência.
O romance A mulher dos pés descalços narra o cotidiano de uma família ruandesa em situação de exílio devido ao conflito entre hutus e tutsis. Com uma linguagem fluída, a autora nos apresenta a cultura daquela região. Embora o relato do massacre entre hutus e tutsis tenha rendido até prêmios no cinema, aqui esse fato chocante não é protagonista. Parafraseando um verso de canção — permita que eu fale e não as minhas cicatrizes — nesse romance a voz é dada às histórias singulares de cada mulher e não às suas dores.
A narrativa sobre mulheres e a maneira como elas se organizam e protegem suas famílias nos conduzem enquanto leitores ocidentais a um mundo muito distante: um conto de fadas às avessas, pois não tem príncipe nem final feliz. No entanto, conhecemos a fada madrinha Suzanne, que iniciava as moças à vida sexual e assegurava-lhe que estava tudo bem. Há também a bruxa má Kilimadame, empreendedora, aprendeu a fazer pão, abriu um hotel e enfeitiçava os homens. E como uma matriosca, a narrativa se revela em diversos microcontos como, por exemplo, a história de Fortunata e sua doença do amor e de Cláudia, a órfã que não arranjava marido, mas com a ajuda das mulheres conseguiu se casar.
Vale ressaltar que muitas vezes no decorrer desses microcontos, a linguagem metafórica empregada pode suscitar uma discussão muito difundida na crítica literária: o imaginário e a importância de recontar o trauma. Alguns teóricos comentam a respeito do efeito terapêutico do narrar com o intuito de construir a realidade. Especificamente a respeito do relato do trauma, Gagnebin (2009) comenta a importância do narrador e do historiador na modernidade:
O que são esses elementos de sobra do discurso histórico? [...] aquilo que não tem nome, aqueles que não têm nome, o anônimo, aquilo que não deixa nenhum rastro, aquilo que foi tão bem apagado que mesmo a memória de sua existência não subsiste — aqueles que desapareceram tão por completo que ninguém lembra de seus nomes. Ou ainda: o narrador e o historiador deveriam transmitir o que a tradição, oficial ou dominante, justamente não recorda. Essa tarefa paradoxal consiste, então, na transmissão do inenarrável, numa fidelidade ao passado e aos mortos, mesmo — principalmente — quando não conhecemos nem seu nome nem seu sentido (GAGNEBIN, 2006, p.54, grifo nosso).
Cabe então a uma das filhas de Stefania, a narradora, transmitir o inenarrável em memória aos mortos e aos anônimos que constituem a sociedade matriarcal de Ruanda. Dessa maneira, durante a narrativa sobre aquela família, também conhecemos aspectos culturais importantes dos tutsis: o inzu, o sorgo, a medicina, o pão, os casamentos bem como os papéis sociais desempenhados por homens e mulheres, sobretudo, as mulheres. Sendo assim, o romance traz a história não oficial ou não dominante tão importante para, entre outras finalidades, a sobrevivência da memória de um povo contada por ele mesmo.
Quanto aos papéis sociais tão bem descritos na narrativa a respeito de homens e mulheres é possível destacar uma linha de pensamento filosófico adotada pelo ocidente e que tenta resgatar África ao seu povo em diáspora: trata-se do mulherisma africana ou africana womanism. 
Segundo Cleonora Hudson-Weems, a africana womanism é centrada na família, ela é forte em conjunto com os homens, “respeitando e reconhecendo espiritualmente seus pares masculinos, respeitando os mais velhos, sendo adaptável, ambiciosa, materna e nutridora”. E, em relação aos homens negros: “as mulheres negras não percebem os homens negros como inimigos, consideram como o inimigo as forças mais amplas e opressivas da sociedade que subjugam os homens, mulheres e crianças negras”. Assim observamos no trecho a seguir: 
As reuniões do ikigo constituíram o verdadeiro parlamento das mulheres. Os homens, por sua vez, cuidavam da justiça e dos negócios de fora da comunidade; [...] As mulheres eram responsáveis pela educação, saúde, economia e assuntos matrimoniais...Cada um tinha direito de falar, pelo tempo que quisesse, sem ninguém interromper. Não havia maioria, não havia minoria. As decisões eram tomadas quando todos consentiam. (MUKASONGA, 2017, p.136). 
Ao contar sua própria história, o romance traz à tona um sentimento de identidade racial no que diz respeito ao nosso passado colonial porque em diversos trechos apresenta-se a cultura do colonizador branco em oposição à cultura local, como por exemplo, o uso de calcinhas, as religiões, os remédios. Era considerado civilizado aquele que adotava os costumes brancos e, somente as crianças batizadas tinham acesso à educação. 
Scholastique Mukasonga expõe em seu romance de maneira atenta e crítica sobre a importância da educação formal para as mulheres tutsis. A narradora descreve o ato subversivo de sua mãe, Stefania. Ela não se conforma em ver uma menina privada do direito de ir à escola, e rapidamente, por meio de uma delegação de mulheres convence o professor Bukuba a alfabetizar a criança, colocando Gloriosa — nome de batismo — na escola. 
Assim, A mulher dos pés descalços não é um relato, mas uma resposta crítica da subalternidade para o poder instituído pela força. Stefania, por meio de suas estratégias de sobrevivência e sua agência em reunir mulheres em assembleia e decidir questões importantes para sua comunidade transmite um ato revolucionário e esperançoso para quem está aberto a outros paradigmas. 

Referências

GAGNEBIN, Jeanne Marie. Lembrar escrever esquecer. São Paulo: Editora 34, 2009. 

HUDSON-WEEMS, Cleonora. Africana Womanism – O outro lado da moeda. Trad. Naiana Sundjata. 2012. Disponível em: https://quilombouniapp.wordpress.com/2012/03/22/africana-womanism-o-outro-lado-da-moeda/. Acesso em: 20 mar. 2020. 

MUKASONGA, Scholastique. A mulher de pés descalços. Trad. Marília Garcia. São Paulo: Nós, 2017.


Mestra pelo Programa de Estudos Pós-Graduados em Literatura e Crítica Literária da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC-SP. Possui graduação em Letras pela Faculdade de Filosofia, Letras, Ciências Humanas da Universidade de São Paulo - FFLCH/USP. Atualmente é Professora de Educação Básica II na Secretaria da Educação do Estado de São Paulo - Seduc/SP. Tem experiência na área de Letras, com ênfase em Literatura Brasileira. Idealizadora do clube de leitura Café Preto (Currículo Lattes). Café Preto - Facebook / Instagram