“A história se repete, primeiro como tragédia, depois, como farsa” (Marx, 2011, p. 25)
Essa frase de Marx nos faz pensar como o golpismo bolsonarista, com seu lacaísmo e delírio nacionalista, tentou refazer o golpe de 64 para defender a “liberdade, costumes e família”. Isso não é novo, e tampouco surpreendente, mas nem por isso deixa de ser tão interessante.
Marx, nessa obra, analisa os processos de tentativa da França de se “colocar nos trilhos” politicamente, com a classe dominante fragmentada em vários interesses pequeno-burgueses, o proletariado organizando o princípio da social democracia, entre outros movimentos.
Após uma redemocratização louvável, o Brasil se introduziu de vez no mercado mundial, na lógica neoliberal e em todas as suas potencialidades e (muitas) falhas. Esse processo resultou em uma eleição de uma hegemonia social-democrata (PT - Lula I e II (2003-2010), Dilma 2011-2016) até sua eminente falha e o golpe elaborado pela direita no ano de 2016. Com o período de baixa na esquerda social-democrata e uma direita tradicional desacreditada, o bolsonarismo e o seu showman Jair vieram meteoricamente para abalar as bases da política dita “moderada”.
O seu discurso inflamado, pseudo-nacionalista, punitivista, fundamentalista e com apoio das bases evangélicas e seus pastores, catapultaram o até então irrelevante Bolsonaro a presidência em menos de um ano. O lema do bolsonarismo “Deus, pátria e família” é bem interessante, vamos ver o que Marx tem a dizer sobre isso:
Durante o mês de junho, todas as classes e todos os partidos se uniram no Partido da Ordem contra a classe proletária, considerada partido da anarquia, do socialismo, do comunismo. Eles “salvaram” sociedade dos “inimigos da sociedade”. O lema repassado por eles as suas tropas consistia nas palavras-chave da antiga sociedade “Propriedade, familia, religião, ordem”, instigando a cruzada contrarrevolucionária com a frase: “Sob este signo vencerás!” (Marx, 2011, p. 36).
O regime parlamentarista; a massa extraparlamentar da burguesia, em contrapartida, sendo servil ao presidente, insultando o Parlamento, maltratando a sua própria imprensa, praticamente convidou Bonaparte a reprimir e destruir o segmento que dominava a fala e a escrita, os seus políticos e os seus literatos, a sua tribuna e a sua imprensa, para que pudesse, confiadamente, sob a proteção de um governo forte e irrestrito, dedicar-se aos seus negócios privados. Ela declarou inequivocamente que estava ansiosa por desobrigar-se do seu próprio domínio político para livrar-se, desse modo, das dificuldades e dos perigos nele implicados (Marx, 2011, p. 124).
Nesse excerto vemos que a burguesia, além de saber que seu ideal de modelo governamental se volta contra si, prefere eleger um presidente autocrático para ter um governo forte e irrestrito, para poder cuidar dos seus negócios em paz, mesmo que isso signifique censurar, perseguir, esmagar sua imprensa e seus ideologizadores - até então seus aliados.
Insatisfeita econômica e ideologicamente com um governo social-democrata, a burguesia o derruba, estabelece o fortalecimento de uma política neoliberal, e elege depois um autocrata neofascista para reproduzir o discurso socialmente reacionário e economicamente neoliberal unindo, assim, por quatro anos, o útil ao agradável, e com um congresso totalmente dominado. É o sonho cristalizado do burguês: ter liberdade econômica e jurídica da exploração humana, com a proteção de um idealizador que manipula sua massa trabalhadora para o lema: Deus, família, ordem, liberdade, e etc.
Nosso pequeno estudo nos leva a seguinte (porém não completa) conclusão: a burguesia quer, precisa de seu viés democrático, o modelo ideal, mas seu sistema econômico entre em constante conflito com suas ideias políticas. Tendo isso em mente podemos verificar, na realidade brasileira, a necessidade, de tempos em tempos, de um governo neofascista, que garanta os interesses burgueses e seu cumprimento com palavras de ordem, religião e etc. Seja em 64 ou em 2016, 2018, 2022, a democracia será atentada, não por ser conceitualmente ruim, mas porque o sistema econômico é invariavelmente contrário à sua plena existência sem concessões, violências e destruição dos direitos do proletariado.