sexta-feira, 13 de junho de 2025

O currículo como tecnologia de guerra

 [...] E à noite nas tabas, se alguém duvidava 
Do que ele contava, 
Tornava prudente: “Meninos, eu vi!

Gonçalves Dias


Fonte: Poder 360

Desde outubro de 2023 assistimos, silentes, a intensificação dos conflitos em Gaza e o consequente genocídio do povo palestino. Coincidentemente nesse interim – ou propositalmente – as escolas da rede pública estadual paulista de educação tornaram-se o púlpito do qual uma ideologia se amplificou apropriando-se do currículo da educação básica paulista para transformá-lo em tecnologia de guerra. 
Uma organização internacional, que em seu portal oficial se autodefine como “apartidária” e, ao mesmo tempo, como uma organização educacional de Israel, firmou parceria com a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP) para oferecer a professores e estudantes um ciclo intensivo de formação sobre antissemitismo. Foi distribuída aos estudantes toda a sorte de materiais possível, e a instituição também doou inúmeros livros à administração pública do estado. Esse relacionamento está amplamente documentado pelas publicações do Diário Oficial do Estado. No mesmo período, não foi possível localizar documentos que evidenciassem uma relação amistosa entre o governo do estado de São Paulo e instituições árabes no que tange à execução de projetos educacionais em qualquer escala.
Considerando a experiência da unidade escolar onde atuo, como resultado desse projeto sobre antissemitismo, professores e professoras desenvolveram atividades diversas que, de um lado, tiveram o mérito de discutir temas relacionados aos direitos humanos e resgatar a memória do holocausto e, de outro, difundir entre os estudantes informações equivocadas que os impossibilitaram de estabelecer a correta distinção entre os termos antissemitismo e antissionismo, por exemplo. Cabe aqui a distinção entre os dois termos: o antissemitismo consiste na aversão ou perseguição aos judeus; ao passo que o antissionismo consiste na oposição a um grupo político originado dentre os judeus, o qual reivindica para si o estabelecimento de um Estado judeu independente – o que equivale a dizer que nem todo judeu é sionista. Porém, o conteúdo propagado pela instituição “apartidária” induziu ao erro ao menos nesse aspecto. 
Evidentemente, uma análise mais apurada de todo o material amplamente divulgado entre docentes e discentes é mais do que necessária para tecer uma reflexão conclusiva a respeito. Ainda assim, se não houve espaço e oportunidade para a discussão crítica dos tópicos abordados durante a formação de modo a contemplar a perspectiva palestina, pode-se inferir que nesse caso o currículo foi utilizado como tecnologia de guerra. E de uma guerra específica, ainda em curso, e que tem vitimado inocentes diuturnamente por meio dos crimes mais perversos. A afirmação pode parecer descabida, precipitada ou um tanto quanto exagerada, mas não podemos esquecer as lições aprendidas com Tomaz Tadeu da Silva: os currículos escolares não consistem apenas em uma listagem de disciplinas. Currículo é documento de identidade, é projeto de sociedade. Por isso, sempre haverá disputa em torno daquilo que deve ou não ser ensinado às crianças e aos adolescentes na escola. Parafraseando Chimamanda Ngozi Adichie, se a história possui muitas vozes, urge sabermos em qual momento o brado do povo palestino ressoará nos currículos e ambientes escolares. 



terça-feira, 21 de janeiro de 2025

Parado em movimento

— Anda muito tempo por aqui?

— Tanto tempo quanto estou parado. 

— Está há muito tempo parado? 

— Tanto tempo quanto estou respirando. 

— Há quanto tempo você respira?

— Não me recordo, quando dei por mim já estava respirando.

— Então você não sabe quanto há quanto tempo você está andando?

— Não importa, mesmo se eu andasse por milhas eu ainda ficaria parado. 

— Não entendi. 

— Você entenderá, mas quando você começar a entender, você já estará parado. 

— E como eu faço para voltar a andar? 

— Boa pergunta, pequena. Mas, se eu soubesse responder, eu já estaria andando há muito tempo. 

 — É bom estar parado?

— E eu te pergunto: é bom estar andando?

— Não sei, nunca parei para pensar nisso, eu só estava vivendo.  

— Por isso você ainda está andando. 

— Ué, então por que você não está andando? Se estivesse morto eu não conseguiria falar com você. 

— Você só entenderá quando estiver parada. Então eu te pergunto: há quanto tempo você está andando? 

— Não me recordo, quando dei por mim já estava andando...


Wilke Meira


quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

Uberização: mais um cadafalso para a educação

Em 26 de fevereiro de 2021 veio a público no canal do YouTube do jornal Folha de S. Paulo o primeiro vídeo da série intitulada “E Eu ?” que, conforme descrição no canal, objetiva apresentar o relato de “minorias pouco representadas na mídia” a respeito de “problemas na relação com a imprensa”. O vídeo em questão consiste em uma entrevista concedida por Paulo Lima – conhecido como Paulo Galo, líder do movimento dos Entregadores Antifascistas – na qual discute de maneira contundente, entre outros temas, as características e abrangência da precarização do trabalho no séc. XXI. Desde o primeiro dia em que o assisti decidi adotá-lo como material paradidático para as aulas de Filosofia, sobretudo para as ocasiões nas quais me proponho a tecer reflexões, com os estudantes, acerca do mundo do trabalho. 

Durante a entrevista, Paulo Lima afirma que a uberização não é um problema exclusivo dos entregadores, mas um processo que alvejará outros setores. E argumenta que se a Revolução Industrial foi responsável pela diminuição dos empregos, a uberização, por sua vez, será responsável pela supressão dos direitos trabalhistas – que não foram concedidos pelos patrões, mas conquistados pelos trabalhadores com muito suor, sangue e lágrimas, ao longo da história. Ao abordar essa questão com os estudantes tento pensar em outros exemplos, mas não consigo ignorar a situação da minha categoria profissional que, ano após ano, assiste imóvel ao próprio estrangulamento: é como se, a cada gestão, governadores e secretários da educação apertassem um pouco mais a corda que cinge violentamente a garganta dos professores e professoras da educação básica pública paulista. 

Uma das primeiras laçadas foi, sem dúvida, a imposição de uma diferença remuneratória entre os cargos de Professor de Educação Básica I e Professor de Educação Básica II. O primeiro cargo, caracterizado pelo exercício da docência nos anos iniciais do ensino fundamental, abarca tarefas importantíssimas como a alfabetização e o ensino dos primeiros cálculos e é desempenhado em sua grande maioria por professoras que recebem um valor menor de hora-aula do que o que é pago aos professores  que exercem o segundo cargo (grupo heterogêneo no qual a presença masculina é bem mais evidente) – há aqui, portanto, uma desvalorização que se pauta no recorte de gênero. 

Alguém poderia objetar que essa situação não se configura como uma ação deliberada de redução de direitos, e que os docentes paulistas vivem este cenário há muitos anos, resignadamente. Eu prefiro pensar que remuneração justa é direito, e que uma situação de injustiça jamais perde seu caráter, mesmo diante do silêncio dos injustiçados. Ainda assim, considerando a objeção, é possível encorpar a argumentação citando os inúmeros episódios dos últimos anos, dentre eles: o esquartejamento da classe docente em oito categorias (A, P, N, F, S, L, O e V) e a distribuição profundamente desigual de direitos trabalhistas entre elas – ação que, diga-se de passagem, desuniu a classe e coibiu sua reação; o cancelamento das ausências abonadas; a redução da quantidade de aulas de disciplinas específicas como Filosofia, Sociologia e Artes; a privatização de escolas; a total falta de transparência no processo de atribuição de aulas para o ano de 2025... 

A pergunta que sempre fica é a seguinte: existe solução? Penso que sim. Em sua entrevista, Paulo Lima descreve como a organização coletiva foi fundamental para que os entregadores de todo o Brasil alcançassem visibilidade: um passo importante para a categoria, que segue em luta por direitos e melhores condições de trabalho. Essa é a minha aposta. Estamos esgotados, mas a defesa dos nossos direitos enquanto classe trabalhadora é o que nos resta: a derradeira tentativa de escapar da forca, cujo sucesso depende da efetiva organização coletiva dos professores e professoras. É preciso engajar-se nessa luta!