Desde outubro de 2023 assistimos, silentes, a intensificação dos conflitos em Gaza e o consequente genocídio do povo palestino. Coincidentemente nesse interim – ou propositalmente – as escolas da rede pública estadual paulista de educação tornaram-se o púlpito do qual uma ideologia se amplificou apropriando-se do currículo da educação básica paulista para transformá-lo em tecnologia de guerra.
Uma organização internacional, que em seu portal oficial se autodefine como “apartidária” e, ao mesmo tempo, como uma organização educacional de Israel, firmou parceria com a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo (Seduc-SP) para oferecer a professores e estudantes um ciclo intensivo de formação sobre antissemitismo. Foi distribuída aos estudantes toda a sorte de materiais possível, e a instituição também doou inúmeros livros à administração pública do estado. Esse relacionamento está amplamente documentado pelas publicações do Diário Oficial do Estado. No mesmo período, não foi possível localizar documentos que evidenciassem uma relação amistosa entre o governo do estado de São Paulo e instituições árabes no que tange à execução de projetos educacionais em qualquer escala.
Considerando a experiência da unidade escolar onde atuo, como resultado desse projeto sobre antissemitismo, professores e professoras desenvolveram atividades diversas que, de um lado, tiveram o mérito de discutir temas relacionados aos direitos humanos e resgatar a memória do holocausto e, de outro, difundir entre os estudantes informações equivocadas que os impossibilitaram de estabelecer a correta distinção entre os termos antissemitismo e antissionismo, por exemplo. Cabe aqui a distinção entre os dois termos: o antissemitismo consiste na aversão ou perseguição aos judeus; ao passo que o antissionismo consiste na oposição a um grupo político originado dentre os judeus, o qual reivindica para si o estabelecimento de um Estado judeu independente – o que equivale a dizer que nem todo judeu é sionista. Porém, o conteúdo propagado pela instituição “apartidária” induziu ao erro ao menos nesse aspecto.
Evidentemente, uma análise mais apurada de todo o material amplamente divulgado entre docentes e discentes é mais do que necessária para tecer uma reflexão conclusiva a respeito. Ainda assim, se não houve espaço e oportunidade para a discussão crítica dos tópicos abordados durante a formação de modo a contemplar a perspectiva palestina, pode-se inferir que nesse caso o currículo foi utilizado como tecnologia de guerra. E de uma guerra específica, ainda em curso, e que tem vitimado inocentes diuturnamente por meio dos crimes mais perversos. A afirmação pode parecer descabida, precipitada ou um tanto quanto exagerada, mas não podemos esquecer as lições aprendidas com Tomaz Tadeu da Silva: os currículos escolares não consistem apenas em uma listagem de disciplinas. Currículo é documento de identidade, é projeto de sociedade. Por isso, sempre haverá disputa em torno daquilo que deve ou não ser ensinado às crianças e aos adolescentes na escola. Parafraseando Chimamanda Ngozi Adichie, se a história possui muitas vozes, urge sabermos em qual momento o brado do povo palestino ressoará nos currículos e ambientes escolares.
sexta-feira, 13 de junho de 2025
O currículo como tecnologia de guerra
[...] E à noite nas tabas, se alguém duvidava
Do que ele contava,
Tornava prudente: “Meninos, eu vi!”
Gonçalves Dias
Fonte: Poder 360
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