segunda-feira, 26 de janeiro de 2026

O 18 de brumário de Luís Bonaparte e o golpismo reacionário bolsonarista: uma análise da farsa histórica

 “A história se repete, primeiro como tragédia, depois, como farsa” (Marx, 2011, p. 25)

Essa frase de Marx nos faz pensar como o golpismo bolsonarista, com seu lacaísmo e delírio nacionalista, tentou refazer o golpe de 64 para defender a “liberdade, costumes e família”. Isso não é novo, e tampouco surpreendente, mas nem por isso deixa de ser tão interessante. 

Marx, nessa obra, analisa os processos de tentativa da França de se “colocar nos trilhos” politicamente, com a classe dominante fragmentada em vários interesses pequeno-burgueses, o proletariado organizando o princípio da social democracia, entre outros movimentos. 

Após uma redemocratização louvável, o Brasil se introduziu de vez no mercado mundial, na lógica neoliberal e em todas as suas potencialidades e (muitas) falhas. Esse processo resultou em uma eleição de uma hegemonia social-democrata (PT - Lula I e II (2003-2010), Dilma 2011-2016) até sua eminente falha e o golpe elaborado pela direita no ano de 2016. Com o período de baixa na esquerda social-democrata e uma direita tradicional desacreditada, o bolsonarismo e o seu showman Jair vieram meteoricamente para abalar as bases da política dita “moderada”. 

O seu discurso inflamado, pseudo-nacionalista, punitivista, fundamentalista e com apoio das bases evangélicas e seus pastores, catapultaram o até então irrelevante Bolsonaro a presidência em menos de um ano. O lema do bolsonarismo “Deus, pátria e família” é bem interessante, vamos ver o que Marx tem a dizer sobre isso:

Durante o mês de junho, todas as classes e todos os partidos se uniram no Partido da Ordem contra a classe proletária, considerada partido da anarquia, do socialismo, do comunismo. Eles “salvaram” sociedade dos “inimigos da sociedade”. O lema repassado por eles as suas tropas consistia nas palavras-chave da antiga sociedade “Propriedade, familia, religião, ordem”, instigando a cruzada contrarrevolucionária com a frase: “Sob este signo vencerás!” (Marx, 2011, p. 36). 

No contexto de recém golpe sofrido pela social-democracia, podemos dizer que o “partido da ordem” era a “nova” extrema-direita que iria livrar o Brasil do “comunismo, da depravação, do kit gay, da mamadeira fálica que iria sexualizar as crianças”. Um perigo, não? Não só a nova extrema direita pretendia nos “livrar” desse mal, mas também retomar “os bons costumes, a família tradicional, a ordem.” Esses eventos não são exclusivos de nossa realidade, mas têm suas particularidades. 

Se em 1964 tínhamos o contexto de guerra fria, guerras ideológicas e um governo desenvolvimentista que não mostrava subserviência aos EUA, em 2016 tínhamos uma social democracia em crise, um modelo econômico neoliberal mostrando mais suas garras e precisando de expansão. Dois interesses em comum das forças da reação, o neoliberalismo e o imperialismo estadunidense, dois governos com tentativas de independência econômica e social dos EUA, sensação de insegurança entre as pessoas, fantasmas do “socialismo” rondando os dois contextos. É a tragédia e a farsa em uníssono para um grande subdesenvolvimento! 

Após 2018, eleição de Bolsonaro e ascensão geral da extrema direita neopentecostal que perdura até hoje, perguntamo-nos: como a democracia, este pináculo tão valorizado, não consegue se manter estável por mais de 30 anos, especialmente no Brasil? Não há resposta simples, mas Marx nos elucida mais uma vez: “ [...] o domínio político da burguesia é incompatível com a segurança e a continuidade da burguesia, destruindo com as próprias mãos, na luta contra as demais classes da sociedade, todas as condições de seu próprio regime” (Marx, 2011, p.124). 

A democracia constitucional, o direito ao voto, a igualdade jurídica, a pluralidade de ideias, tudo isso se volta contra a própria burguesia. Assim, seus setores necessitam de uma tal dita “ordem” para controlar as demais classes e sufocar seu poder político, pois seus próprios ideais se voltaram contra ela. Vejamos ainda: 

O regime parlamentarista; a massa extraparlamentar da burguesia, em contrapartida, sendo servil ao presidente, insultando o Parlamento, maltratando a sua própria imprensa, praticamente convidou Bonaparte a reprimir e destruir o segmento que dominava a fala e a escrita, os seus políticos e os seus literatos, a sua tribuna e a sua imprensa, para que pudesse, confiadamente, sob a proteção de um governo forte e irrestrito, dedicar-se aos seus negócios privados. Ela declarou inequivocamente que estava ansiosa por desobrigar-se do seu próprio domínio político para livrar-se, desse modo, das dificuldades e dos perigos nele implicados (Marx, 2011, p. 124). 

Nesse excerto vemos que a burguesia, além de saber que seu ideal de modelo governamental se volta contra si, prefere eleger um presidente autocrático para ter um governo forte e irrestrito, para poder cuidar dos seus negócios em paz, mesmo que isso signifique censurar, perseguir, esmagar sua imprensa e seus ideologizadores - até então seus aliados. 

Insatisfeita econômica e ideologicamente com um governo social-democrata, a burguesia o derruba, estabelece o fortalecimento de uma política neoliberal, e elege depois um autocrata neofascista para reproduzir o discurso socialmente reacionário e economicamente neoliberal unindo, assim, por quatro anos, o útil ao agradável, e com um congresso totalmente dominado. É o sonho cristalizado do burguês: ter liberdade econômica e jurídica da exploração humana, com a proteção de um idealizador que manipula sua massa trabalhadora para o lema: Deus, família, ordem, liberdade, e etc.

Nosso pequeno estudo nos leva a seguinte (porém não completa) conclusão: a burguesia quer, precisa de seu viés democrático, o modelo ideal, mas seu sistema econômico entre em constante conflito com suas ideias políticas. Tendo isso em mente podemos verificar, na realidade brasileira, a necessidade, de tempos em tempos, de um governo neofascista, que garanta os interesses burgueses e seu cumprimento com palavras de ordem, religião e etc. Seja em 64 ou em 2016, 2018, 2022, a democracia será atentada, não por ser conceitualmente ruim, mas porque o sistema econômico é invariavelmente contrário à sua plena existência sem concessões, violências e destruição dos direitos do proletariado. 

Referências

MARX, K. O 18 de brumário de Luís Bonaparte. São Paulo: Boitempo, 2011. 

Osvaldo Ferreira Silva

sábado, 24 de janeiro de 2026

Quando o sonho do oprimido é tornar-se opressor

Esse pequeno texto é um convite à academia para que possamos inserir em nossas agendas de reflexão a pauta das dinâmicas internas de funcionamento dos programas de pós-graduação para além dos regimentos oficiais e a pauta da saúde mental dos pós-graduandos. 

Há alguns eu ingressei no curso de doutorado de um programa de pós-graduação de uma universidade pública. Durante a entrevista, última etapa do processo seletivo, o/a orientador(a) pretendido(a) mostrou-se muito acolhedor(a) e compreensivo(a) em relação à minha situação de docente da rede pública, o que me fez acreditar que o ritmo de estudos e exigência em relação à pesquisa seriam adequados ao meu contexto. Entretanto, já na primeira reunião de orientação coletiva, percebi que me equivoquei: acuados, os demais orientandos tinham receio de falar sobre suas pesquisas e os trabalhos que estavam desenvolvendo. Pouco tempo depois, fui pressionado a aceitar uma rotina extenuante: além da elaboração do próprio projeto de pesquisa, eu deveria cumprir todos os créditos em 12 meses, o que envolvia inúmeras atividades, como cursar disciplinas, produzir artigos para publicar em revistas com fator de impacto, participar de eventos acadêmicos, colaborar na elaboração e aplicação de planos de aula de disciplinas da graduação. O acolhimento e compreensão iniciais desvaneceram-se, e eu já não podia tolerar ser tradado com grosseria e rispidez diante dos demais orientandos. Eles suportavam as humilhações calados, mas eu decidi que o título não valia a minha dignidade: o preço era alto demais e eu não estava disposto a pagar. 

Depois de decidir pelo desligamento do programa, comecei a avaliar as trilhas que percorri no curso de mestrado do mesmo programa e instituição. A experiência não havia sido tão insalubre, mas deixou suas marcas negativas: falta de retorno em relação às atividades entregues, o que gerou insegurança em relação ao aproveitamento do curso e à sua conclusão de maneira satisfatória; falta de retorno em relação ao andamento da minha pesquisa, o que tornou o processo de qualificação extremamente ansiogênico; apropriação indevida de trabalhos acadêmicos produzidos por mim, o que gerou revolta e indignação, entre outras situações. 

Essas experiências foram vividas antes da divulgação, na mídia, dos casos de abuso sexual e demais abusos cometidos por intelectuais brasileiros e estrangeiros, pesquisadores que se tornaram referência em suas áreas de estudo e atuação, e que se enquadram em um campo que poderíamos denominar de “progressista”. Comparando as experiências, comecei a me perguntar se existiria um padrão. Talvez o sonho do oprimido seja tornar-se opressor. Não pretendo explicar um fenômeno extremamente complexo a partir de casos particulares, ou justificar os atos criminosos cometidos por essas pessoas. Penso apenas que essas situações evidenciam o fato de que precisamos refletir sobre as sequelas da pós-graduação.